1-Conceito de sistema e do sistema educativo
Etimologicamente a palavra "sistema" vem do termo grego sustêma, que significa conjunto coerente.
Segundo Jacques Lesourne " Um sistema é um conjunto de elementos ligado por um conjunto de relações."
Segundo Rosney sistema é "um conjunto de elementos em interacção dinâmica, organizados em função de um fim."
Sistema educativo é definido na nossa lei de bases como "conjunto de meios pelos quais se concretiza a educação e se desenvolve segundo um conjunto organizado de estruturas e de acções diversificadas" (n.º 2 e 3 do art.º 1º da Lei n.º46/86 de 14 de Outubro).
2-Sociedade do conhecimento, sistema educativo e as inovações
No âmbito da educação/ sistemas educativos e sociedade do conhecimento:
a)- a educação assente nas tecnologias e no conhecimento deve levar os indivíduos a perceber as mudanças constantes e as suas consequências;
b)- os saberes que hoje são transmitidos não servem para formar elites para se guiar uma nação, mas preparar os indivíduos capazes de desempenhar as suas funções nas diversas áreas, a aprendizagem ao longo da vida é agora mais valorizada;
c)-as competências essenciais definidas para a aprendizagem ao longo da vida combinam conhecimentos, aptidões, e atitudes e são necessárias à realização e desenvolvimento pessoal, à inclusão social, à cidadania activa e ao emprego, são elas: comunicação na língua materna e em línguas estrangeiras, competência matemática e competências básicas em ciências e tecnologia, competência digital, aprender a aprender, competências sociais e cívicas, espírito de iniciativa e espírito empresarial, sensibilidade e expressão culturais;
d)- as competências referidas permitem uma maior flexibilidade e adaptação às mudanças, por parte da população activa, sendo ainda um factor de inovação, produtividade e competitividade, contribuindo também para motivação e satisfação dos trabalhadores e para a qualidade do trabalho.
Inovação hoje não é tanto a descoberta de algo novo mas “a capacidade de explorar sistematicamente os efeitos produzidos por novas combinações e utilizações de itens de stock existentes de conhecimento, cujo acesso está mais generalizado e facilitado do que nunca” (Soete, 2000: 14).
Soete, Luc (2000). “A economia baseada no conhecimento num mundo globalizado”. In Maria João Rodrigues (org.). Para uma Europa da Inovação e do conhecimento – Emprego, Reformas Económicas e Coesão Social. Oeiras: Celta, pp. 3-31
Como é referido no artigo, “a inovação não é uma mudança qualquer. Ela tem um carácter intencional, afastando do seu campo as mudanças produzidas pela evolução "natural" do sistema. A inovação é, pois, uma mudança deliberada e conscientemente assumida, visando uma melhoria da ação educativa.”
Desta forma a inovação não é uma simples reformulação, pois implica uma rutura com a situação anterior, mesmo que seja temporária e parcial. "Inovar faz trazer algo "novo", ao invés de renovar que implica fazer aparecer algo sob um novo aspeto, não modificando o essencial."
O conceito de inovação surge amplamente distante do conceito de reforma. Deste modo, "o conceito de inovação é, pois, bastante mais rico e abrangente do que os conceitos de mudança, renovação ou de reforma, atrás mencionados. A inovação pedagógica traz algo de "novo", ou seja, algo ainda não estreado; é uma mudança, mas intencional e bem evidente; exige um esforço deliberado e conscientemente assumido; requer uma ação persistente; tenciona melhorar a prática educativa; o seu processo deve poder ser avaliado; e para se poder constituir e desenvolver, requer componentes integrados de pensamento e de ação (Cardoso, 1992)."
Em suma, o conceito de inovação é urgente nos sistemas educativos e não deve cingir-se a uma simples ideia de mudança ou de reforma. Nos sistemas educativos o conceito de inovação deverá ser uma das medidas prioritárias, mas que exige profundas alterações e um romper com o ensino tradicional. Muitas vezes, os conceitos de modernidade e tradição são vistos como conceitos opostos. Contudo, é importante realçar que num processo inovador, a tradição e os elementos particulares aparecem como mais um componente.
Este pensamento é defendido por Callon (2004), quando afirma que a inovação não destrói a tradição, pelo contrário se nutre da mesma. Ressalta que existem margens de manobra na competição económica, na produção dos conhecimentos científicos e na produção de inovações. Tais margens de manobra são capazes de preservar e até enriquecer a identidade das tradições.
A inovação é sustentada por elementos como a criatividade, mas necessita de um suporte de conhecimento anterior, principalmente tácito, e de pesquisa científica. Esta última, irá funcionar como um catalisador, no sentido de ampliar horizontes e quebrar paradigmas estabelecidos.
Ao admitirmos a criatividade como uma componente essencial durante o processo de inovação, Callon afirma que “a qualidade de inovação depende da qualidade das ideias e ideais que estão na origem da inovação”. Para o autor, o processo de inovação é progressivo.
Na mesma linha de pensamento, Nonaka e Takeuchi (1997) afirmam que a inovação é recriar o mundo de acordo com uma perspetiva específica ou ideal. Desta forma, afirmam que o processo de conhecimento é o grande impulsionador para a inovação, porque engloba tanto ideias como ideais.
Henderson e Clark (1990) classificam as inovações em dois tipos:
Inovações radicais: quando é criado um novo design conceptual num determinado produto, isto é, quando existe efectivamente uma mudança no conhecimento enraizado nos componentes e quando à mudança de arquitectura entre as suas partes.
Inovações incrementais: quando ocorre mudanças relativamente menores no projecto já existente, aproveitando o design anterior.
Estes autores realçam a ideia de que as inovações radicais têm um maior impacto em termos positivos, do que as inovações incrementais. Pois acreditam que as primeiras conduzem a uma maior abertura para os novos mercados e novas aplicações para produtos.
3-Mutações sociais e as tecnológicas
Tendo em conta a diversidade de interacções presentes na aprendizagem de qualquer indivíduo, os sistemas educativos tiveram a necessidade de aplicar regras comuns, sem nunca deixar de respeitar a individualidade de cada um.
Os sistemas educativos pretendem apostar na criatividade, comunicação, trabalho em equipa tentando excluir situações de exclusão social.
Para acompanhar o avanço das sociedades contemporâneas os sistemas educativos terão de ser flexíveis, adaptados às constantes mudanças tecnológicas, pró-activos no enriquecimento de saberes e no exercício activo da cidadania.
O constante avanço tecnológico faz aumentar a necessidade de adaptação ao contexto e formação dos indivíduos, desta forma, também os sistemas educativos tem de se actualizar, adaptar e acompanhar este avanço, num ambiente de constante mudança.
Como refere Ramos (2007), "de qualquer modo, a educação nunca se poderá constituir em motor de desenvolvimento equitativo, enquanto problemas como o empobrecimento continuarem a assolar muitos dos países menos desenvolvidos."
Outro factor de mutação social, em muitos países, é a desigualdade que ainda existe entre homens e mulheres no que concerne à igualdade de oportunidades.
Para colmatar estas desigualdades surgiu o conceito de educação básica, que visa que todos os indivíduos tenha acesso ao mesmo nível de estudos.
Mas, “Esta é uma tarefa difícil, já que a formalidade de alguns sistemas educativos pode, de certa forma, limitar o desenvolvimento pessoal, pela imposição dum modelo educativo único que não tem em conta a diversidade individual." Ramos (2007)
Relativamente ao factor de mutação social mencionado (desigualdade que ainda existe entre homens e mulheres no que concerne à igualdade de oportunidades), infelizmente ainda é o que se verifica mais. O mais grave do que esta diferença social ao nível de oportunidades de carreira, são os países cujas culturas ainda não aceitam que o género feminino estude, nem ao nível do ensino básico, com receio do desconhecido e de que as jovens se "afastem da comunidade", ou seja, o seu desenvolvimento é proibido de modo a garantir que elas mantenham os costumes, condenando assim as gerações posteriores.
As sociedades apresentam maneiras diferentes de receber as novas tecnologias da informação e comunicação, e em contrapartida os sistemas educativos integram-nas de forma gradativa e sequencial.
Face a esta problemática, o papel da Educação e dos sistemas educativos, devem ser orientados no sentido de apostar numa aprendizagem de saber e “saber fazer” (Delors, 1996) de forma reflexiva, criativa, dedutiva e relacional e de uma formação ao longo da vida, através de uma aposta na melhoria das capacidades e competências profissionais dos indivíduos.
Para Ramos (2001, p.29) “não se trata de adaptar a educação ao mundo tal como é, mas de dar aos humanos a capacidade de responder aos problemas que o mundo lhe impõe e de se tornarem actores mais responsáveis das mudanças que devem animar e que não se podem determinar à priori.” Neste cenário, é imperativo que a comunidade escolar introduza no seu quotidiano as novas tecnologias. Para que tal aconteça não basta “a simples aquisição da tecnologia, na sua dimensão física, representada pela aquisição de equipamentos, novas instalações e até mesmo com a contratação de equipas especializadas para esta finalidade”. (Barbosa, Moura & Barbosa, 2004) Além disso, os sistemas educativos devem evoluir para “privilegiar mais a imaginação, a criatividade, a comunicação, o trabalho em equipa, entre outros aspetos” (Ramos, 2007). A escola deixa de ser apenas o local de obtenção de conhecimento, onde o professor debita a matéria para os alunos (aluno passivo); e passa a ser ponto de partida para o desenvolvimento do cidadão que, com as ferramentas adquiridas, é capaz de procurar o seu próprio conhecimento (aluno ativo), ou seja, o professor leva o aluno/formando a querer conhecer mais o contexto onde está inserido, a pesquisar informação que o auxilie na resolução dos seus problemas autonomamente e ao longo da vida. Segundo Delors (1998, p.18) “parece impor-se, cada vez mais, o conceito de educação ao longo da vida, dadas as vantagens que oferece em matéria de flexibilidade, diversidade e acessibilidade no tempo e no espaço”.
4-Sociedade educativa e as TICs
No que respeita ao avanço tecnológico, como refere Delors (2005), "é necessário caminhar para uma “Sociedade Educativa”, capaz de dotar o individuo de uma educação básica de qualidade, com conhecimentos que lhe permitam modelar a sua vida e participar na evolução da sociedade."
Contudo, ainda é muito difícil mudar culturas / mentalidades. Ainda hoje encontramos professores que possuem atitudes diversas face às tecnologias de informação e comunicação (TIC). Alguns recusam-se a entrar nesta nova etapa, já outros utilizam-nas diariamente, independentemente do seu nível de conhecimento. No caso das TICs, este processo envolve claramente duas facetas inconfundíveis: a tecnológica e a pedagógica. Os desafios que estas tecnologias trazem ao professor são vários, mas temos de considerar o papel que elas estão a ter na sociedade, bem como os processos de transformação que estão a acontecer nas escolas em geral, sendo que hoje em dia é quase impensável dar uma aula sem recorrer a essas tecnologias.
5-Tendências evolutivas das sociedades contemporâneas e ao modo como interpelam a Educação e os sistemas Educativos.
É inequívoco que a sociedade contemporânea tem os seus alicerces na interactividade entre os indivíduos e as novas tecnologias de informação e comunicação, são facilitadores desse pulsar de partilha., é nessa dinâmica social que estão as bases da socialização moderna. Em suma o acesso e difusão da comunicação pelo computador, amplia e estimula o conhecimento nas áreas sociais, económicas, culturais e politicas.
Segundo Ramos (2007), as principais tendências evolutivas das sociedades contemporâneas são o crescimento da liberdade de escolha dos indivíduos, o domínio da ciência e a complexidade dos conhecimentos humanos e a incerteza, a irracionalidade, o paradoxo da sociedade atual.
A ideia, de certa forma pré-concebida, que era através da educação que podíamos criar um mundo mais informado, mais evoluído, mais justo e mais rico, deixou de certa forma de fazer sentido, na medida em que a sociedade mudou não fruto de um maior e melhor investimento na educação de todos os povos, mas no rápido surgimento de vários fenómenos decorrentes em grande parte, das tecnologias de informação e da comunicação, a uma escala planetária que teve inevitavelmente consequências políticas, económicas, sociais e culturais em todas as sociedades, com repercussões diversas.
Na segunda metade do séc. XX se deu o grande desenvolvimento económico nos países mais desenvolvidos e que veio criar desequilíbrios nas sociedades. O fim das fronteiras, a unificação das culturas, a inteligência colectiva e na economia das ideias veio mudar a visão do mundo na perspectiva de Lévy (2001).
Houve uma emergência de preparar e modificar mentalidades capazes de processar toda a informação e de capacitar o individuo com competências intelectuais e cognitivas. Os sistemas educativos tiveram que se moldar e adaptar face a estes novos desafios. A formação das pessoas foi um pilar importante nos países desenvolvidos ou em desenvolvimento, no entanto ainda é uma pequena parcela onde os países menos desenvolvidos não têm acesso a essa educação. As próprias mulheres só muito tardiamente acederam à educação e à participação activa na sociedade, que veio atrasar e trazer lapsos/lacunas no desenvolvimento colectivo.
Na necessidade emergente de dotar a humanidade com ferramentas para o seu desenvolvimento surgiu o "conceito de educação básica para todos". Foi com a educação básica que se implementou as modificações e que permitiram dotar as pessoas de instrumentos intelectuais para o desenvolvimento da sociedade.
O trabalho do relatório para a ÛNESCO (Delors 1996) refere quatro aprendizagens fundamentais para o séc. XXI. Os quatro "pilares do conhecimento: aprender a conhecer, isto é adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as actividades humanas; finalmente aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes" (Delors, 1996).
É com o futuro no horizonte que se espera um sistema educativo mais flexível, com capacidades de se adaptar às mudanças do individuo, da sociedade e do mundo. O caso Português/ moçambicano ainda está longe dos resultados esperados. " O problema não parece residir na falta de recursos financeiros, mas sim ao nível da organização, onde problemas como a falta de estabilidade dos programas e dos corpos docentes, a escassa participação das famílias, entre outros, actuam como factores bloqueadores do sistema. Neste momento parece existir uma fractura entre a sociedade e o sistema educativo, devida em grande parte aos fracassos evidentes dos sucessivos ensaios de novas soluções e ao cansaço e descrédito público daí resultante." (RAMOS, 2007).
A sociedade ainda vai ter que se reinventar, e é com a participação de todos e com o contributo de todos os agentes educativos que se poderá atingir os padrões desejáveis em prol de uma sociedade activa nesta "aldeia global".
É pois imperativo que os sistemas educativos estejam em constante desenvolvimento, quer por acesso às novas tecnologias, quer pelo uso de novos métodos pedagógicos e até pela consciencialização das comunidades, acerca da importância de um ensino de qualidade, não apenas para evolução de um único indivíduo, mas para o crescimento da sociedade atual e das gerações seguintes.
Referências Bibliográficas
DELORS, J. (Coord.) (2005). Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI (9.ª Edição). Porto: Edições Asa.
DELORS, J. (Chairman) (1996). Learning: The Treasure Within. Report to UNESCO of the International Commission on Education for the Twenty-first Century.PP.56.
CALLE, D. A., G.; DA SILVA, E. (2008). "Inovação no contexto da sociedade do conhecimento", in Revista TEXTOS de la CiberSociedad, Nº 8 - Temática Variada (Características da sociedade do conhecimento).
LÉVY, P. A conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência.http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/geografia/article/viewFile/6679/6026Acesso em: 27 outubro de 2014.
RAMOS, C. (2001). "Tendências evolutivas das sociedades contemporâneas", in Os processos de autonomia e descentralização à luz das teorias de regulação social: o caso das políticas públicas de Educação em Portugal (Tese de Doutoramento). Monte de Caparica: FCT/UNL.
RAMOS, C. (2007). Aspetos contextuais dos Sistemas Educativos. Lisboa: Universidade Aberta.
RAMOS, C. (2007). Sobre o conceito de “Sistema”. Lisboa: Universidade Aberta.
SOETE, Luc. (2000). “A economia baseada no conhecimento num mundo globalizado”. In Maria João Rodrigues (org.). Para uma Europa da Inovação e do conhecimento – Emprego, Reformas Económicas e Coesão Social. Oeiras: Celta, p. 3-31.